Tomado de TV247 / Brasil – Texto en portugués
Os principais feitos do governo Temer em política externa não
estão no esvaziamento da Unasul, na mitigação do Mercosul ou no papel
acentuadamente irrelevante que o Brasil assume nos BRICS.
Os pontos de destaque estão na desnacionalização da produção
energética, através do desmonte da área de refino da Petrobrás e do fim do
regime de partilha, e na desnacionalização da Embraer.
O impacto desses dois eventos se dará não apenas na indústria
e na economia (a Petrobrás chegou a representar 14% do PIB e a Embraer é nossa
principal exportadora de tecnologia).
O baque maior está na sinalização de que desenvolvimento e
projeto nacional saem de cena e que nosso destino é a periferia do mundo.
A VENDA DA EMBRAER à Boeing representa um passo decisivo no
desmonte produtivo/tecnológico do país.
O negócio coloca em tela a sequência do processo de
privatizações iniciado nos anos 1990, durante os governos tucanos.
Assim como a Vale privatizada deixou de ser uma empresa de
ponta em 27 áreas diferentes para se tornar uma mineradora, a Embraer pode
virar apenas uma montadora de projetos vindos de fora.
A empresa apresenta pelo menos três jóias que a tornam
atraente ao capital externo: a expertise na fabricação de jatos regionais, de
caças turbohélices e - agora - de cargueiros aéreos.
A BOEING SE INTERESSA especialmente pelo primeiro filão,
visando exibir um portfólio completo de aviões de passageiros.
Absorvendo a empresa brasileira, ela disputará de igual para
igual com a Airbus (consórcio alemão, britânico e francês) os mercados de jatos
de longo e curto alcance, podendo obter ganhos de escala em todas as
modalidades da aviação comercial.
O mercado mundial dessa modalidade é extremamente competitivo
e concentrado em poucas empresas.
Ele é dominado por quatro corporações, Boeing, Airbus,
Bombardier (Canadá) e Embraer. As duas primeiras dividem cerca de 60% do
mercado planetário, a Embraer é líder mundial em jatos de até 150 lugares,
seguida pela Bombardier.
O restante é disputado pelo consórcio entre as russas Irkut e
Yakovlev (United Aircraft Corporation), pela Mitsubishi japonesa, pela Comac
(Commercial Aircraft Corporation of China).
Embora a Irkut (1932) e a Yakovlev (1934) tenham longa
tradição no setor, a fusão entre as duas data de 2004 e seu nicho de mercado
ainda é restrito à Rússia e a alguns países do leste europeu.
A chinesa foi fundada em 2008 e somente agora passa a
disputar espaços além fronteiras.
A Mitsubishi fabricou um dos caças-ícones da II Guerra
Mundial (o A6M5 Zero), mas seu avião comercial, o Mitsubishi Regional Jet (MRJ)
fez seu primeiro voo apenas em 2015.
ASSIM, A ÚNICA POSSIBILIDADE para a Boeing enfrentar a
concorrência da Airbus é algum tipo de associação com a Embraer. Isso faz com
que o poder de barganha dos acionistas da brasileira seja altíssimo.
É bem possível que a Embraer não seja viável no médio prazo,
caso se mantenha como está, ou seja, disputando apenas os nichos de aviação
comercial e militar (que fica fora da negociação), sem oferecer em sua carteira
aeronaves maiores.
Há infinitas possibilidades de associação com a gigante
estadunidense, além de sua venda pura e simples.
Essa opção aliena um conhecimento acumulado ao longo de meio
século, implica que dentro de alguns anos suas linhas de produção sejam
transferidas para os EUA.
Além disso, torna-se questão de tempo a quebra de dezenas de
empresas nacionais de componentes aeronáuticos e o desaparecimento de milhares
de postos de trabalho.
As carreiras de engenharia aeronáutica e aeroespacial
perderão muito de seu sentido, passando a atender empresas de aeronaves de
pequeno porte. Ou seja, o abalo interno será pesado.
POR FIM, UM COMENTÁRIO LATERAL.
A Boeing irá adquirir 80% da divisão de aviação comercial da
Embraer por US$ 4,2 bilhões.
Para efeito de comparação, o desenvolvimento e fabricação do
Embraer KC-390, o maior e melhor cargueiro militar aéreo do mundo, é resultado
de uma soma de investimentos públicos (BNDES, PAC e FAB) que atingem US$ 3,9
bilhões. Seu mercado potencial alcança US$ 60 bilhões para a próxima década.
Este setor faz também parte da negociação e mostra a magnitude das cifras do
setor. Em 2016, a receita líquida da empresa foi de US$ 6,1 bilhões.
A venda da Embraer representa a alienação de um patrimônio e
de investimentos públicos de décadas, a quebra de um setor industrial de ponta
e a conformação de um projeto que implica empurrar cada vez mais o Brasil para
a periferia.
Não é à toa que conta com o apoio entusiasmado de Jair
Bolsonaro e de alguns militares marcados por um patriotismo de fachada e um
entreguismo de alma.
*Gilberto Maringoni é professor de Relações Internacionais na
Universidade Federal do ABC. É também jornalista e cartunista.
