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Estamos diante de uma nova bipolaridade, onde a hegemonia do
“ocidente” e dos EUA e seus aliados estratégicos anglo-saxões se vê realmente
ameaçada
Por Bruno Beaklini (*)
Estamos diante de uma nova bipolaridade, onde a hegemonia do
“ocidente” (em geral) e dos EUA e seus aliados estratégicos anglo-saxões
(Sistema Cinco Olhos) se vê realmente ameaçada. Como resposta, um ato contínuo
de multiplicação de ofensivas, como o cerco no Leste Europeu, tensões no Mar do
Sul da China e as constantes ameaças militares no Mundo Árabe e Islâmico. Para
além do emprego de força militar e guerras irregulares, a potência que saiu
vitoriosa na Guerra Fria do século XX aplica suas capacidades dentro dos
aparelhos de Justiça de diversos países (modalidade que conhecemos na América
Latina) e condiciona o Sistema Swift diante de suas vontades.
Não são atos isolados, mas uma estratégia. Trata-se do emprego complexo da reserva monetária mundial e o dinheiro válido como forma de troca no comércio global. O congelamento das reservas externas da Rússia, da ordem de 604 bilhões de dólares estadunidenses – em março de 2022 – é mais uma etapa de uma modalidade de guerra total. Uma destas facetas, além da tão falada e pouco compreendida “guerra híbrida”, é o uso da lei como arma de guerra, no inglês “Lawfare”. O Brasil foi vítima desta operação, diante da farsa da Lava Jato e seus operadores do direito recrutados através do Projeto Pontes dos departamentos de Estado e Justiça, a partir de fevereiro de 2009, nos primeiros meses da administração do democrata Barack Obama. Já outros países vistos como rivais dos EUA, como Irã e Venezuela, viram as sanções econômicas e financeiras, aumentarem de intensidade no governo do republicano Donald Trump.
O “ensaio” contra duas potências médias – Irã e Brasil –
maturou contra um Estado com poderio militar e excelente arranjo econômico,
como é o caso da Federação Russa na Era Putin. O que vemos no presente momento
é um cerco econômico, especificamente usando a moeda dos Estados Unidos, o
fator dólar e seu conhecido “privilégio exorbitante”, como uma arma de guerra.
As respostas e saídas, evidentemente, vêm dos países cujas bases industriais,
sólidos fundamentos econômicos através de capital fixo e capacidade de
penetração financeira através do comércio de longa distância. O governo Biden
sabe disso e toda a maquinaria dos falcões democratas e os senhores da guerra
de Washington se movem neste sentido.
Não há segredo algum, é tudo feito e dito em alto e bom som.
Em sua visita à Polônia ocorrida no final de março deste ano, o presidente
estadunidense Joe
Biden afirmou o conceito de guerra financeira, sendo a Rússia o alvo
atual.
“Essas sanções econômicas são um novo tipo de política
econômica com o poder de infligir danos que rivalizam com o poder militar. As
medidas estariam esvaindo a força russa, sua capacidade de reabastecer suas
forças armadas e sua capacidade de projetar poder”.
Em 2015, o Congresso estava pressionando a administração
Obama a tomar alguma medida militar contra as instalações nucleares iranianas.
Para evitar o conflito bélico, decidiram atacar o Banco Central. Stuart Levey
ex subsecretário do Tesouro dos EUA para terrorismo e inteligência
financeira, afirma que
o Império afiou seu mecanismo usando as sanções contra o Irã como experimento:
“Eu reuni minha equipe e disse: ‘Nós não começamos a usar
essas ferramentas, vamos dar a ele algo que ele possa usar com o Irã. No Irã,
estávamos usando facões para cortar o caminho passo a passo, mas agora as
pessoas podem ir por ele muito rapidamente, ir atrás do banco central de um
país como a Rússia é um passo tão poderoso quanto você pode dar na categoria de
sanções do setor financeiro”.
O mecanismo de pressão aprimorado é descrito pelo professor
Ernani Torres neste
debate.
“Eles pegam o dólar e utilizam como se fosse um bloqueio
continental de 1917. Agora eu faço um bloqueio sem ter de botar navio, avião. É
muito barato, muito eficaz. E reduz drasticamente a capacidade de reação do
poder do oponente. Sem criar nenhum problema político (doméstico), não tem
corpo de fuzileiro naval nem nada semelhante. Então, essa é uma arma testada e
os Estados Unidos colocam agora contra a 10ª economia do mundo (a Rússia); é um
processo que veio para ficar e do meu ponto de vista é uma reafirmação de uma
nova ordem em que os Estados Unidos botam para dentro e botam para fora do
sistema global quem ataca contra as regras do jogo deles (EUA) e quem estiver
fora dessas regras. Eles (EUA), já anunciaram que estavam de ‘saco cheio’ da
globalização – no meu ponto de vista, nos últimos dez anos – então a gente está
assistindo um filme que tem um passado interessante”.
É evidente que se trata de forma de pressão, levando tanto à
escalada inflacionária (por escassez e especulação), como ataque ao PIB do país
alvo, buscando encolher sua capacidade produtiva e de geração de riquezas.
Nenhum aliado dos EUA fica “confortável” com essa situação, considerando que as
posições no tabuleiro do poder global podem mudar e interesses objetivos dos
Estados são igualmente mutáveis.
Uma lenta queda e a crise anunciada após a ofensiva nas
sanções
A
obra do professor de Berkeley, Barry Eichengreen (Privilégio
Exorbitante, 2011) traz em seu subtítulo um prenúncio: “A ascensão e a
queda do dólar e o futuro do Sistema Monetário Internacional”. Onze anos
após o lançamento do livro e quase quinze do início da farsa com nome de crise
(a quebra do mercado imobiliário especulativo estadunidense, iniciada com a
queda do índice Dow Jones em julho de 2007) o mapa do “tesouro” planetário
parece estar desenhado. A moeda estadunidense é basicamente a substituta de
Bretton Woods (em 1971), em movimento estratégico lançado pela administração
republicana de Nixon, ainda em seu primeiro governo (antes do impeachment) e
finalizada na virada da década seguinte por Paul Volcker (ex-presidente do FED
nos governos de Carter e Reagan, de 1979 a 1987).
Podemos afirmar que o mundo hegemonizado pelo Império no
final do século XX e na vitória pós-Bipolaridade foram traçados por estes dois
movimentos. No artigo
do economista Shahin Valée, especialista em geoeconomia europeia, está
descrita a percepção dos aliados subalternos dos EUA diante de sua capacidade
de veto e sanções.
“O sistema de pagamentos internacionais é a reserva monetária
das cadeias de suprimentos internacionais, no caminho inverso. Não é possível
cortar a Rússia do sistema internacional de pagamentos a menos que estejamos
preparados para cortá-la das cadeias globais de abastecimento – ou, neste caso,
do fornecimento de energia para a Europa.”
O conceito acima é um absoluto, ou seja, sem o uso do dólar e
fora do Sistema Swift, as cadeias de valor globais e o sistema de trocas ficam
semiparalisados diante da ausência de meios de pagamentos e compensações.
Dominar este mecanismo e poder incidir diretamente dentro dos Acordos de
Basileia permite uma vantagem comparativa quase absoluta para os EUA em sua
modalidade de guerra financeira.
Logo, o inverso também é verdadeiro e qualquer pretensão
soberana de desenvolvimento, ou minimamente de abastecimento e realização de
comércio exterior, necessita de outras moedas como reserva global e mecanismos
de trocas não sancionáveis. Nossos países de origem se especializaram em
resistir ao imperialismo sionista e contra a cobiça pelas reservas de petróleo.
Nesta etapa do século XXI, é preciso superar o fator dólar e o controle sobre o
Swift, e o Poder Mundial passa por ter e exercer estas capacidades.
Publicado originalmente no Monitor
do Oriente Médio
/ Tomado de Sul 21 / Brasil.
(*) Bruno Lima Rocha Beaklini
(@estanalise / blimarocha@gmail.com/ estrategiaeanaliseblog.com)
