Por Leonardo Boff
Tomado de la Revista IHU ON-LINE / Brasil - Texto en portugués
"A Terra nos criou um lugar amigável
para viver mas nós não estamos nos mostrando amigáveis para com ela. Ao
contrário, movemos-lhe uma guerra, sem chance de ganhá-la, a ponto
de ela não aguentar mais e começar a reagir numa espécie de contra-ataque. Este
é o significado maior da intrusão de toda uma gama de vírus, especialmente
do Covid-19. De cuidadores da natureza nos fizemos em seu Satã
ameaçador", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor, em artigo
publicado em seu blog, 02-11-2021.
Eis o artigo.
Em Glasgow, nesse final de 2021, com a COP26 se discute como reduzir os níveis de gases
de efeito estufa para não chegarmos em 2030 a 1,5 graus
Celsius e então a um caminho sem retorno. A maioria está cética,
pois os grandes emissores não cumpriram o Acordo de Paris.
Reduzirem apenas até 7% e o Brasil, ao contrário, cresceu em 9% sua
emissão. Dada a engrenagem do processo produtivo mundial de viés capitalista
que tende a não assumir nenhum limite em seus ganhos, provavelmente não
alcançaremos esta meta. Nossos filhos e netos herdarão uma Terra devastada e poderão nos amaldiçoar por não
termos feito a lição de casa. A situação dramática da Terra
está ausente nos debates. Não se fala da relação destrutiva para com a natureza. Vejamos rapidamente, no curso da história, como
chegamos ao drama atual.
A interação com a natureza
Nossos ancestrais que se perdem na penumbra dos tempos
imemoriais, entretinham uma interação não destrutiva: tomavam o que
a natureza fartamente lhes oferecia. Esse tempo durou milênios, começando
na África, onde surgiu o ser humano, pela primeira vez há alguns
milhões de anos. Por isso, somos todos, de alguma forma, africanos.
A intervenção na natureza
Há mais de dois milhões de anos, irrompeu, no processo
da antrogênese (a gênese do ser humano na evolução) o homem
hábil (homo habilis). Aqui ocorreu uma primeira virada. Inicia-se aquilo
que culminou de forma extrema nos nossos dias. O homem hábil inventou
instrumentos com os quais operava uma intervenção na natureza: um pau
pontiagudo, uma pedra afiada e outros recursos semelhantes. Com eles podia
ferir e matar um animal ou podia cortar plantas. Essa intervenção se
desenvolveu muito mais intensamente com a introdução da agricultura e
da irrigação, ocorrida volta de 10-12 mil atrás na era chamada
do neolítico. Desviavam-se águas dos rios, melhoravam colheitas,
criavam animais e aves para serem abatidos.
É o tempo em que os humanos deixaram de ser nômades e se fizeram sedentários,
com vilas e cidades, geralmente, junto aos rios como ao Nilo no Egito,
ao Tigre e ao Eufrates no Oriente
Médio, ao Indo a o Tanges na Índia e
ao redor do imenso lago interno, o Amazonas que há milhares de
anos, desaguava no Pacífico.
A agressão à natureza
Da intervenção passamos à agressão da natureza, na era industrial a partir do século
XVIII. Surgiram as fábricas com a produção em massa. Forjou-se todo tipo de
instrumentos técnicos que permitiam extrair enormes riquezas da natureza.
Partia-se da premissa de que o ser humano é “senhor e dono” da natureza, não se sentindo
mais como hóspede e parte dela. A ideia-força era a vontade de poder, entendida
como capacidade de dominar tudo: outras pessoas, classes sociais, povos,
continentes, a natureza, a matéria, a vida e a própria Terra como
um todo. Foram produzidas armas de destruição em massa, químicas, biológicas e
nucleares.
O inglês Francis Bacon, tido como o fundador do
método científico moderno, chegou a escrever: “Deve-se torturar a natureza como
o torturador tortura a sua vítima, até ela entregar todos os seus segredos”. Os
conhecimentos científicos foram logo transformados em técnicas de extração de bens naturais, cada vez mais aperfeiçoadas,
para realizar o propósito de acumulação ilimitada. Aqui a agressão ganho
estatuto oficial. Foi e continua sendo aplicada até os dias atuais.
A destruição da natureza
Nos últimos tempos de modo especial, depois da segunda
guerra mundial (1939-1945) a sistemática agressão ganhou dimensões de
verdadeira destruição de ecossistemas, da biodiversidade, dos bens e serviços escassos da natureza,
até da Mãe Terra agredida em todas as suas frentes.
Segundo notáveis cientistas, inauguramos uma nova era
geológica, chamada de antropoceno, na qual o ser humano emerge como a maior
ameaça à natureza e ao equilíbrio da Terra, particularmente de seus
climas. Chegou-se ao ponto de nosso processo industrialista e o estilo
consumista de vida dizimar anualmente cerca de 100 mil organismos vivos. Mais
de um milhão deles estão sob grave ameaça de desaparecimento.
A partir desta verdadeira tragédia biológica começou-se a
falar de necroceno, quer dizer, a morte (necro) em massa de
vidas da natureza e de vidas humanas por miséria, fome de milhões e
milhões e agora pelo Covid-19 planetário.
A erosão da Matriz Relacional
Perdeu-se a perspectiva do Todo. Ocorreu uma
verdadeira fragmentação e atomização da realidade e dos respectivos saberes.
Sabe-se cada vez mais sobre cada vez menos. Tal fato possui suas vantagens mas
também seus limites. A realidade não é fragmentada. Por isso os
saberes também não podem ser fragmentados. Falamos da aliança entre todos os
saberes, também dos populares (Prigogine).
Deixou-se de considerar as relações de interdependência que
todas coisas guardam entre si. Numa palavra: erodiu-se a matriz relacional de
todos com todos, que envolvem o próprio universo. Nada existe fora da relação.
Numa poética formulação do Papa Francisco em sua
encíclica Laudato si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015) se
afirma:
O Sol e a Lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal, o
espetáculo de sua diversidades significa que nenhuma criatura se basta a si
mesma; elas são interdependentes uma das outras para se completarem mutuamente
no serviço uma das outras! (n.86)
Se realmente todos estamos entrelaçados, então devemos
concluir que o modo de produção capitalista, individualista, depredador da
natureza, visando o maior lucro possível sem se dar conta das relações
existentes entre todas as coisas, emitindo gases de efeito estufa, está na contramão da lógica da natureza e
do próprio universo.
A Terra nos criou um lugar amigável para
viver mas nós não estamos nos mostrando amigáveis para com ela. Ao contrário,
movemos-lhe uma guerra, sem chance de ganhá-la, a ponto de ela não
aguentar mais e começar a reagir numa espécie de contra-ataque. Este é o
significado maior da intrusão de toda uma gama de vírus, especialmente do Covid-19. De cuidadores da natureza nos fizemos em seu Satã
ameaçador.
Ou mudamos ou podemos correr o risco de desaparecer
Até o advento da modernidade o ser humano percebia-se ligado
ao Todo. Agora a Mãe Terra foi transformada “num banheiro” e
“estamos cavando nossa sepultura” disse o Secretário Geral da ONU António
Guterres ao abrir os trabalhos na COP26 no dia 31/10/2021, ou num baú cheio de recursos
a serem explorados. Nessa compreensão que acabou por se impor, as coisas e os
seres humanos estão desconectados entre si, cada qual seguindo um curso
próprio.
A ausência do sentimento de pertença a um Todo maior, o
descaso pelas teias de relações que ligam todos os seres, tornou-nos
desenraizados e mergulhados numa profunda solidão, coisa que o impedia uma
visão integradora do mundo, que existia anteriormente.
Por que fizemos esta inversão de rumo? Não será uma única
causa, mas um complexo delas. A mais importante e danosa foi termos abandonado
a referida Matriz Relacional, vale dizer, a percepção da teia de
relações que entrelaçam todos os seres. Ela nos conferia a sensação de sermos
parte de um Todo maior, de que estávamos inseridos na natureza como parte dela,
como irmãos e irmãs, como afirma a Fratelli tutti do Papa Francisco e não simplesmente
seus usuários e com interesses meramente utilitaristas. Perdemos a capacidade
de admiração pela grandeur da criação, de reverência face ao
céu estrelado, de respeito por todo tipo de vida e da capacidade de chorar pelo
sofrimento da maioria da humanidade.
Se não fizermos esta virada de “senhores e donos” (dominus)
da natureza para “irmãos e irmãs (frater) entre todos, da humanidade e
da natureza, não serão eventuais acordos alcançados na COP26 de diminuição de gases de efeito estufa que irão nos salvar. A questão é a
mudança de paradigma. Ou mudamos ou corremos o risco de desaparecer da face
da Terra.