Por Marcello
Neri
Tomado de REVISTA
IHU ON-LINE / Texto en portugués
O dia 13 de
março marca o sétimo
aniversário da eleição de Bergoglio como
bispo de Roma. Por ocasião da data, a editora EDB publicou o
livro “Profezia di Francesco. Traiettorie di un pontificato” [Profecia
de Francisco. Trajetórias de um pontificado], com contribuições de D.
Menozzi, P. Sequeri, S. Morra, P. Benanti, A.
Zani e K. Appel.
Trata-se da
abordagem de um caminho realizado pela província dehoniana do norte da Itália que
havia dedicado a esse tema a “Semana de Formação Permanente” em
2018.
A redação
do Settimana News, 08-03-2020, apresenta o livro publicando a
introdução, escrita pelo teólogo e padre italiano Marcello Neri,
professor da Universidade de Flensburg, na Alemanha.
A tradução é
de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
O alívio
histórico do pontificado de Francisco é frequentemente coberto
pelo zumbido dos murmúrios da oposição,
pelos disparos antiaéreos lançados pelos seus estrênuos defensores e pelo
desânimo daqueles que imaginavam uma repentina e verticalista transformação
dogmática e canônica do corpo da Igreja.
Na disposição
dos fronts que caracterizam hoje a Igreja Católica, o que corre o
risco de se perder é precisamente o senso histórico de um ministério petrino
determinado a fazer as contas evangelicamente com uma mudança de época que já
começou há muito tempo.
Porque o
ponto de ruptura em relação aos seus dois antecessores não está tanto, ou não
apenas, na visão da Igreja, mas, acima de tudo, na consciência
histórica do fim de alguns processos seculares e do início de outros
que estão levando a transformações profundas da socialidade humana e
da antropologia moderna.
Francisco age
e pensa a Igreja precisamente a partir dessa consciência incômoda: a modernidade, como
europeização do mundo e tudo o que isso inclui, já acabou há quase um século (P.
Prodi).
Com
essa modernidade, a Igreja instruíra uma relação dialética,
que fez a sua história configurando as suas principais instituições que a
marcaram e a moldaram. Em virtude dessa dialética, constitutiva e
constitucional ao mesmo tempo, o fim da modernidade também
significa chegar ao término de uma época da Igreja Católica.
O fim da
modernidade
Em suma, em
comparação com João Paulo II e Bento XVI, Francisco não
pensa e não age mais como se a modernidade ainda existisse; e, portanto, começa
a delinear uma visão da Igreja e do catolicismo coerente com a efetividade histórica dentro
da qual eles projetam a sua fidelidade ao evangelho do Reino e à criação
desejada por Deus. Fidelidade que não pode mais ser unívoca e uniforme, a mesma
e idêntica onde quer que a fé se encontre sendo vivida no cotidiano dos homens
e das mulheres de hoje.
Desde o
início, a adesão comum à história de Jesus, como presença palpável do cuidado incondicional de Deus pela criação e
pelas suas criaturas, pode ser efetivamente tal somente
na medida em que se despedaça em uma série de relatos constitutivamente abertos
sobre a retomada da fé e da sua imaginação, que os conjuga em contextos
culturais e sociais extremamente diferentes entre si.
A decisão
de Francisco é exatamente esta: apoiar a saída da Igreja
Católica da luta contra os moinhos de vento da modernidade,
reativando, no coração institucional da Igreja, a dinâmica original da notícia
evangélica de Deus. Por muito tempo, a condição histórica permitiu que o catolicismo
latino (aquele que se espalhou por todo o mundo) construísse um
aparato conceitual, institucional, canônico e pastoral que podia renunciar formalmente
ao corpo a corpo cotidiano com as Escrituras testemunhais.
O tempo novo
A intuição à
qual Francisco permanece firmemente ancorado não é apenas o
fato de que essa tática de ocultação não funciona mais, mas
que a sua reproposição em uma nova condição histórica faria com que a Igreja
Católica corresse o risco de se transformar em uma espécie de seita
eletiva, por um lado, e em um agrupamento caracterizado por uma etnia cultural,
por outro.
Tudo isso às
custas daquela destinação universal e hospitaleira da fé, que é a razão
(divina) da existência da Igreja Católica. Não há abertura, gesto,
intenção, processo, expectativa no ministério de Francisco que
não se enquadre no espaço luminoso desta persuasão fundamental: a hospitalidade
do divino cristão tem o dever de cuidar da justiça e da dignidade da existência
humana sobre a terra desejada por Deus – sem distinções e sem pré-seleções.
Todos, indiscriminadamente, são os destinatários dessa boa notícia; e é dever
da fé fazer com que possam percebê-la exatamente como tal.
Sem
ingenuidade alguma, porque Francisco sabe muito bem que as
potências mundanas se alimentam do gozo perverso de contradizer esse desejo de
destinação do Reino de Deus. Mas, com a teimosia evangélica, recusa-se a deixar
a elas a última palavra, travando uma batalha em favor da justiça que deve ser
feita ao humano, sem a qual a sua dignidade corre o risco de permanecer apenas
como uma declaração de intenções, que se expõe à ira e à vingança daquelas
mesmas potências.
Firme no leme
E aqui, na brecha
desse confronto de armas brancas, Francisco permanece bem
firme, intercedendo por todos, especialmente por aqueles que são descartados
sem piedade alguma pela lógica do gozo ilimitado de lucros
especulados sobre o destino dos mais fracos e frágeis.
Atrair sobre
si a violência das potências – e a de uma oposição
eclesial que parece não se dar conta do risco de se
colocar a seu serviço –, para que todos possam ter uma vida em abundância e
aspirar à justiça esperada, é o pano de fundo cristológico ao
qual o ministério petrino nunca deveria abrir mão.
Podemos ou
não concordar com Francisco sobre muitas coisas, mas é
exatamente isso que ele está fazendo por nós – independentemente daquilo que
nós pensamos dele.
Por isso, o
seu ministério merece ser compreendido e apoiado, enquanto assumimos o fardo
daquela parte que ele não desempenha por nós, porque só pode ser realizada do
modo desejado por Deus, mediante as práticas da nossa fé mais pessoal.
Nessa ótica,
pareceu-nos oportuno reunir no livro que o leitor tem em mãos as conferências
proferidas durante a Semana de Formação Permanente da
Província Dehoniana do norte da Itália sobre o tema da “Profecia
de Francisco”.
