Quem Matou Malcolm
X? reabre caso que muitos queriam
esquecer e denuncia racismo da investigação.
- Tomado de Jornal Tornado /
Portugal - Texto em português do Brasil
- Por Inácio Araujo, Crítico
de cinema
Quem Matou
Malcolm X? tem,
ao menos, duas virtudes. A primeira é reabrir um caso de assassinato traumático
ocorrido em 1965. A segunda, revelar às muitas pessoas que o desconhecem quem
foi esse líder negro, suas origens, sua evolução e sua liderança.
Quem comanda
a investigação é Abdur-Rahman Muhammad, ativista, seguidor e, sobretudo,
admirador incondicional do líder. Sabemos que seu trabalho – que resultou no
documentário dirigido por Phil Bartelsen e Rachel Dretzin – repercutiu o
suficiente para que ao menos fosse anunciada a reabertura do caso.
Bem, a morte
de Malcolm X não é o único mistério dos anos 1960 nos Estados Unidos – há desde
John e Robert Kennedy a Martin Luther King a assombrar o imaginário americano
dessa década. Mas o caso Malcolm X foi especial porque ele foi um personagem
especial.
Jovem
marginal, foi encontrado na prisão por Elijah Muhammad, líder dos muçulmanos
negros. Malcolm não só se converte como se torna uma espécie de filho adotivo
de Elijah, além de seu braço direito, graças à inteligência formidável e a uma
rara capacidade de retórica.
Logo, porém,
seu dom para a liderança motiva boatos de que ele poderia passar a perna em
Elijah no movimento, o que ele sempre negou. Para a versão dramatizada do caso,
vale a pena ver o Malcolm X (de Spike Lee, com um formidável
Denzel Washington).
Mas o
ambiente envenenado, mais a marcação da polícia sobre o movimento, além de
divergências entre os líderes, acabam por arruinar as relações entre os dois.
Para resumir, tudo isso culmina no atentado que matou Malcolm X.
Bem, o fato
é que Abdur-Rahman nunca se conformou com o resultado das investigações levadas
pela polícia de Nova York. Na ocasião, um dos três atiradores responsáveis pelo
crime foi baleado e preso no ato. Os dois outros fugiram. A polícia e a promotoria
arranjaram para que dois inocentes servissem como bodes expiatórios. Mesmo após
o primeiro atirador, preso em flagrante, inocentá-los, nada foi feito.
É atrás
dessas pistas que vai Abdur-Rahman. É claro, há aí o interesse de um caso
policial. Mas não como os outros. Abdur-Rahman acumula pilhas de evidências de
como as autoridades brancas queriam só dar uma resolução formal ao caso. A bem
da verdade, a morte de Malcolm não lhes incomodou – enquanto, vivo, ele era um
perigo.
Abdur-Rahman
é obstinado. Aos poucos, sua investigação começa a aproximá-lo de possíveis
assassinos que haviam fugido na época. Qual a ligação deles com o movimento de
Elijah (sobretudo a igreja de Newark, ferozmente ortodoxa)? Qual o papel dos
policiais (brancos) nessa trama?
Não se trata
de uma investigação banal, e sim de remexer um caso que muita gente gostaria de
ver esquecido para sempre. O valor dela (particular todo o tempo) é tão óbvio
quanto o seu interesse.
Diga-se, por
outro lado, que o relato da série poderia ser um tanto reduzido sem qualquer
prejuízo para a compreensão dos fatos. É como se houvesse o compromisso de
entregar seis episódios à Netflix, quando quatro ou cinco poderiam ser tão
esclarecedores e um pouco menos dispersivos.
O que não
torna sua visão menos relevante para a compreensão de um personagem e de um
fato capitais para a compreensão da América e mesmo do mundo contemporáneo.
