Tomado de la
revista digital IHU ON-LINE / Nota en portugués
É difícil
definir a formação profissional de Ismail Serageldin. Nascido
em Gizé em 1944, ele fundou a Biblioteca de Alexandria,
foi vice-presidente do Banco Mundial, codiretor de painéis
africanos sobre biotecnologia e inovação. Escreveu mais de cem livros e recebeu
37 doutorados honoris causa, de países tão diversos como Austrália, EUA, Índia, Líbano, Bulgária e Azerbaijão.
A reportagem
é de Renato Grandelle, publicada por O Globo,
22-04-2019
A trajetória
de sucesso é definida em poucas frases em seu site: "O mundo é minha casa.
A Humanidade é minha família. A não violência é meu credo. Paz, justiça, igualdade
e dignidade para todos é meu propósito".
Serageldin abriu
a conferência "Como ciência e tecnologia podem contribuir para a
redução da pobreza e da desigualdade", organizada em março pela Academia
Brasileira de Ciências. Em entrevista, ele conta como a desigualdade
social cresce em ritmo acelerado, apesar dos
benefícios da globalização, e critica o despreparo das autoridades para atender
a população miserável. Há, no entanto, boas notícias — a comunidade científica
internacional nunca esteve tão integrada, e isso pode ajudar no desenvolvimento
de novos fármacos e em tecnologias que, no futuro, podem ajudar a combater a
fome.
Eis a
entrevista.
A ciência
contribuiu para enormes avanços no desenvolvimento socioeconômico. Por que,
então, ainda temos tantas pessoas sem condições básicas de sobrevivência, como
acesso a água potável e a saneamento básico?
De fato,
conseguimos progredir muito. No início do século XIX, 99% da população do
planeta vivia em condição de pobreza
extrema. Agora, esperamos extingui-la em dez ou 15 anos.
Mas as transformações podem ser mais rápidas. Ainda nos deparamos com a fome crônica,
e é difícil atacá-la, já que suas vítimas estão em locais de difícil acesso e,
geralmente, sem condições de cultivo agrícola. Muitas vezes são refugiados,
seja pela guerra ou pelos impactos das
mudanças climáticas.
O senhor
acredita que o planeta está atento a essa população?
Não. A fome é
um Holocausto silencioso. Custa milhares de vidas e, ainda
assim, não gera comoção ou debate.
Por que o
fosso entre ricos e pobres é cada vez maior?
Acredito que
isso tenha começado na década de 1980, quando governos neoliberaisconvenceram
o mundo de que o setor privado poderia assumir tarefas básicas do serviço
público. Era uma mentira, que aumentou a
desigualdade em todos os países, da Suécia à Somália.
Nos EUA, o país mais rico do mundo, 20% da renda estava nas mãos da
metade da população mais pobre em 1980. Este índice caiu para 12,5% em 2014. No
mesmo intervalo, a camada de 1% dos mais ricos, que controlava 10,7% da renda
nacional, passou a ter 20,2% em suas mãos.
Por que
muitas pessoas encaram a ciência como algo tão distante de sua realidade?
Em muitos
casos, não há mesmo um diálogo direto entre cientistas e a sociedade. Ambos se
conhecem apenas através da tecnologia desenvolvida nos laboratórios e
incorporada ao nosso cotidiano. Mas outras finalidades da ciência também devem
receber mais atenção, como o investimento na curiosidade. Na primeira metade do
século XX, Albert Einstein desenvolveu trabalhos sobre a
física quântica que, à época, não tinham qualquer aplicação prática. Depois,
suas fórmulas tornaram-se fundamentais para a criação do computador e do
celular. O setor privado, laboratórios nacionais e universidades devem proporcionar
recursos a estas experiências.
Milhares de
remédios foram desenvolvidos nas últimas décadas, mas somente algumas dezenas
foram destinados ao tratamento de doenças tropicais. Falta diálogo entre países
desenvolvidos e em desenvolvimento?
Acredito que
este diálogo nunca foi tão intenso. Uma pessoa infectada por ebola na África pode
parecer um caso isolado, mas, se ela viajar de avião, em poucas horas leva o
sintoma da doença para o outro lado do mundo. Por isso, há cada vez mais
colaborações, e não apenas na prevenção de doenças. Países como o Brasil e
os EUA estão investindo no aumento da produtividade
agrícola. Os avanços obtidos a partir daí deveriam ser
levados a partes do planeta que serão mais atingidas pelas mudanças climáticas,
onde os cultivos serão prejudicados por eventos como enchentes e secas. Também
devemos pensar mais em biotecnologia,
dando recursos a produtos como a carne
artificial, que tem o mesmo gosto da natural,
mas é feita em laboratório, sem que essa atividade ocupe terrenos enormes.
Qual é o
futuro da ciência?
Ele é baseado
em um princípio: o desejo de destruir a atual forma de se pensar. Isaac
Newton revolucionou o mundo, até que um total desconhecido, de 26
anos, que nem sequer trabalhava em uma universidade, mudou a ciência. Era Einstein.
Agora, procuramos um pós-Einstein. Precisamos estar abertos a novas ideias, que
contrariem as nossas crenças, e muitas vezes estas descobertas vêm de jovens
que ainda estão na casa dos 20 anos. São nossos alunos, às vezes alguém que
trabalha em uma garagem.
O Brasil
investe menos de 2% de seu orçamento em ciência. É possível avançar com a falta
de recursos?
O país reduziu
razoavelmente bem o fosso entre ricos e pobres no início do século XXI, quando
atacou simultaneamente a desigualdade e
a pobreza. Mas não adianta ter dinheiro sem seguir alguns
fatores, como ter instituições públicas que deem amparo político à pesquisa.
O Brasil aumentou sua produção científica, mas a qualidade
ainda não avançou suficientemente.
