Ri alto
quando ouvi que o novo presidente da Funarte, Dante Mantovani, disse “O rock
ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto. A indústria do
aborto por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo. O
próprio John Lennon disse que fez um pacto com o diabo”. Mas depois pensei: a
quantos brasileiros faltará discernimento para compreender o absurdo desta e de
tantas outras afirmações que a turma de Bolsonaro inscrevem diariamente no
autos da nossa história.
- Carolina Maria Ruy, em São Paulo /Jornal Tornado-Texto em português do Brasil
Uma vez,
quando eu estava na sexta série do ensino fundamental (nem sei se ainda é assim
que se diz), uma professora aplicou uma prova, não lembro de qual matéria ou
mesmo se era alguma avaliação extracurricular. O fato é que, de posse do
questionário, um engraçadinho da classe, divertindo-se com a simploriedade de
uma questão leu alto: “Qual o melhor leite para alimentar um recém-nascido?”.
Do outro lado da sala, outro colega, ainda mais engraçadinho, respondeu: “Leite
estragado”. Ambos riram.
Dias depois a
professora nos apresentou as provas corrigidas. Para estupefação e regozijo da
classe, e, por que não dizer, com uma dose de sadismo, mais comum em
professores do ensino básico do que gostaríamos de admitir, ela leu em voz alta
a resposta de uma garota à simplória pergunta do leite: “Leite estragado,
fulana de tal?”. Todos riram diante da menina que ficou imóvel e constrangida.
Lá se vão
trinta anos deste episódio, mas embora eu já não lembre mais qual era a
matéria, a professora e nem dos rostos dos engraçadinhos, nunca esqueci da
expressão catatônica da colega, exposta ao ridículo por sua flagrante falta de
conhecimentos básicos.
Hoje ela deve
ter seus 42 anos, como eu. O ponto em que quero chegar é, como uma pessoa que
aos doze anos não consegue discernir algo tão básico como um alimento
estragado, interpreta o mundo hoje? Em outras palavras, como pessoas privadas
de conhecimento, incentivo ao senso crítico e cultura, interpretam os absurdos
descarregados por Bolsonaro e sua trupe diariamente nos olhos e ouvidos do
Brasil?
No instante
da prova, minha colega se agarrou à informação que lhe foi oferecida,
inscrevendo-a no documento que passaria pelo crivo de sua mestra, sem pensar
sobre a plausibilidade daquilo. A professora, por sua vez, não abriu mão de
humilhá-la perante a classe. Não cuidou de resguardar a fragilidade de sua
aprendiz. Não procurou saber antes que história estaria por trás de tanto
alheamento.
Isso
aconteceu em uma importante escola estadual, o Fernão Dias Paes, em um bairro
nobre de São Paulo, no ano de 1989. Uma escola marcada pela mistura de alunos
de classes mais remediadas, que viviam no bairro, com alunos que chegavam da
periferia pelo extenso terminal de ônibus no Largo de Pinheiros.
Infelizmente,
embora os indicadores de acesso à educação tenham melhorado, não podemos
comemorar uma melhora substancial na cultura e educação no Brasil. A privação
de conhecimento, incentivo ao senso crítico e cultura é a regra que sedimenta
nosso secular atraso. E esta privação acontece de diversas formas, até mesmo
dentro das escolas, uma vez que o ensino também é permeado por preconceitos e
diferenciações sociais.
Ontem, dia 2
de dezembro de 2019, eu ri alto quando ouvi que o novo presidente da Funarte,
Dante Mantovani, disse “O rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a
indústria do aborto. A indústria do aborto por sua vez alimenta uma coisa muito
mais pesada que é o satanismo. O próprio John Lennon disse que fez um pacto com
o diabo”. Mas depois pensei: a quantos brasileiros faltará discernimento para
compreender o absurdo desta e de tantas outras afirmações que a turma de
Bolsonaro inscrevem diariamente no autos da nossa história?
